Ver um jovem fazendo ginástica com o propósito de esculpir o corpo soa
bastante familiar. Mas ainda estranhamos o fato de academias treinarem o
cérebro para deixá-lo mais afiado. A ideia que vem sendo desenvolvida por
precursores da neuróbica, espécie de aeróbica para o pensamento, defende que
podemos formatar o nosso cérebro da maneira que queremos — e não se contentar
com o que ganhamos da genética e do meio.
Na prática, funciona assim: para tirar o cérebro da zona de conforto, é
preciso acostumar-se a desacostumar-se. Ou seja: fazer coisas diferentes e de
forma inusitada. Colocar o relógio no pulso contrário, escrever com a outra mão
ou vestir-se de olhos fechados são atividades que demandam a ativação de outras
áreas da mente. A sistematização dessas atividades chama-se neuróbica. Ao fazer
isso, circuitos quase nunca ativados da rede associativa do cérebro são
utilizados, aumentando a flexibilidade mental.
Há muito já se tem conhecimento que alimentação sadia, sono regular,
exercício físico e uso cognitivo (estímulo pela música, leitura ou matemática,
por exemplo) são pilares para manter o cérebro ativo. O ponto é que, para
cuidar bem, não basta mantê-lo ativo: é preciso desafiá-lo de maneira
rotineira.
— Um erro clássico é que muitas pessoas não dormem direito, não comem
bem, não fazem atividade física e ainda por cima "aposentam" o
cérebro. Aí a pessoa vai ver o filme e estranha não lembrar o nome do ator —
brinca a neurocientista Carla Tiepo.
Para tornar a massa cinzenta mais eficiente, Carla entende que a
tecnologia ajuda, mas não substitui o estudo, o uso de objetos concretos e as
relações presenciais. Isso porque as dinâmicas e interações são bons estímulos
para as sinapses.
Descubra se está exercitando sua mente:
Paixões que alimentam neurônios
Na prática, os sintomas de um cérebro sem uso podem confundir-se com
outros problemas de nível emocional. Não raro uma pessoa sente-se ansiosa ou
deprimida quando, na verdade, está apenas fazendo um mau uso de seu cérebro. Ao
ver muitos de seus pacientes queixarem-se de esquecimento, a coordenadora de
Pesquisa em Neuropsicologia do Instituto do Cérebro (InsCer) Mirna Wetters
Portuguez deu-se conta de que o sintoma estava associado à depressão. O branco
no nome de algumas informações não era apenas falta de memória, mas de ânimo:
— A sociabilidade é fundamental para ativar funções cognitivas. Muitos
não lembram das informações porque estão esquecidos de viver. Quando fazemos
algo que nos dá prazer, naturalmente ativamos as conexões neuronais.
Ter reservas de neurônios ativos — estimulados durante a juventude e
fase adulta — também ajuda, segundo Mirna, a manter a atividade mental na
velhice. Quanto mais essas atividades forem associadas ao prazer, maior serão
essas conexões:
— Fazer coisas que despertam paixões e resgatam o prazer de viver nos dá
muitos anos de vida útil — afirma a pesquisadora.
Foto:
Tadeu Vilani/Agência RBS
Da matemática para a vida
Há pouco mais de uma década, o conceito de neuróbica surgiu nos Estados
Unidos e foi amplamente propagado pelo mundo por meio de dezenas de obras sobre
cognição cerebral. Um dos títulos mais conhecidos foi Mantenha seu Cérebro
Vivo, de Lawrence C. Katz e Manning Rubin.
— Só com estudo e pesquisa podemos tentar obter o cérebro que queremos —
afirma Rubin.
Segundo ele, a maioria dos chamados exercícios cerebrais pode ajudar a
fazer uma tarefa mais rapidamente pela repetição ou a melhorar uma habilidade
específica. Rechaçado por céticos na época, o assunto hoje é visto com outros
olhos.
— As pesquisas já comprovaram que um ambiente enriquecido associado à
prática de exercícios tem efeito positivo no sistema neural envolvido com
aprendizado e memória. Pesquisas com neuroimagem mostram que o exercício leva a
evidentes mudanças na estrutura e função do cérebro — diz Mirna Wetters
Portuguez, coordenadora de Pesquisa em Neuropsicologia do Instituto do Cérebro
(InsCer).
Há alguns anos, academias de ginástica cerebral espalham-se pelo Brasil.
Métodos ao estilo do Supera apostam em técnicas como o uso do ábaco — a
calculadora chinesa — para melhorar a agilidade mental. Os professores garantem
deixar seus alunos mais espertos.
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